Princípios e critérios de conservação, reabilitação e restauro.

Diagnóstico e tecnologias de Conservação e Restauro

 Metodologia

Princípios e critérios de conservação, reabilitação e restauro 

“Tal como as pessoas os edifícios sofrem acções de degradação ao longo do tempo, sobretudo por acção de agentes patológicos, como os cloretos, o carbono etc..

Estas patologias frequentemente evoluem de forma progressiva, afectando a operacionalidade e em limite, a estabilidade do edifício.

A elaboração destes relatórios visa dotar o dono de obra de um diagnóstico actual do estado de conservação do edifício. Permite essencialmente identificar, tipificar e caracterizar as diferentes patologias do edifício, apontando soluções e/ou procedimentos a adoptar.” (2)

“Antes de se iniciar uma qualquer intervenção deve-se sempre avaliar o edifício, de modo a conhecerem-se as condições de conservação e segurança, e as patologias a eles inerentes bem como as causas que as provocam. Posteriormente deve proceder-se à pesquisa e análise de soluções tecnológicas que se podem aplicar, recorrendo, sempre que possível, a materiais e técnicas tradicionais e, em alguns casos, inovadoras.

O património cultural edificado vai sofrendo alterações ao longo dos anos, que são provocadas pelas forças da Natureza e pelo Homem. Preservar um edifício ou monumento é uma luta contra a Natureza e as suas forças que causam degradação física dos elementos. A preservação tem de ser um processo contínuo. Os edifícios antigos que chegaram aos dias de hoje, preservando a sua autenticidade são aqueles que tiveram uma manutenção periódica limitada ao que era necessário, executada com materiais e técnicas tradicionais originais ou compatíveis. A degradação dos edifícios antigos é, essencialmente, devido aos agentes climáticos, ao tipo de uso e à ausência de manutenção. Estes edifícios foram normalmente construídos com os materiais disponíveis na região onde foram construídos e encontram-se, nomeadamente, nos centros históricos de vilas e cidades, sendo importantes para a definição da sua identidade, especialmente dos centros urbanos tradicionais, enriquecendo o seu património cultural, e só, recentemente, têm sido reabilitados e conservados, ao contrário do que é feito com os edifícios especiais e monumentos, que são simultaneamente construções e bens culturais, cuja reabilitação e manutenção já se vem efectuando há muitos anos. A intervenção nestes edifícios é essencial para o sucesso da reabilitação urbana. Entende-se por edifício antigo, uma construção construída antes do aparecimento do betão, utilizando técnicas e materiais tradicionais.

A principal preocupação da conservação e da reabilitação é manter o aspecto e a qualidade original inalterada, sempre que possível recorrendo à utilização de materiais e tecnologias originais, de modo a manter a identidade do edifício e transmiti-la às gerações futuras, assegurando a continuidade do passado. Um edifício é tanto mais autêntico, quanto menor forem as substituições ou alterações de que o mesmo foi alvo.

A longevidade das construções só pode ser garantida se tiver preocupações a nível da conservação e reabilitação.

 

(2)   http://joseromanoarquitectos.com.pt/servicos/relatorio%20de%20patologias.htm

 

Uma dificuldade frequente na conservação e reabilitação de edifícios é a utilização de materiais e técnicas originais, isto porque os materiais utilizados podem já não se encontrar no mercado e, caso se encontrem, é difícil encontrar quem domine a sua aplicação prática. Por isso, muitas vezes recorre-se erradamente a materiais e técnicas modernas, uma grande parte delas incompatíveis com os edifícios antigos, perdendo assim o seu valor inerente. Materiais tais como cal, areia, pedra, barro, madeira e ferro com que muitas obras de arquitectura antiga e edifícios antigos foram construídos são também de boa qualidade, encontrando-se, hoje em dia, várias edificações que os utilizaram em excelente estado de conservação. Deve-se então recorrer aos materiais antigos (originais) e técnicas tradicionais, caso seja possível, em princípio compatíveis com os dos edifícios antigos, mas quando estes se revelam ineficazes devem-se utilizar técnicas e materiais contemporâneos. Usar materiais e técnicas tradicionais não é suficiente para garantir a qualidade de uma intervenção, porque os materiais novos, iguais aos utilizados antigamente foram produzidos recentemente, o que vai fazer com que haja algumas diferenças de comportamento em relação aos materiais que se encontram desde há muitos anos nos edifícios antigos. O estudo das técnicas tradicionais de construção de edifícios antigos contribui para a conservação dos mesmos.

Cada edifício é constituído por um conjunto diverso de materiais e estruturas, com variados posicionamentos e funções, formando um edifício com características únicas, resultado de uma determinada época, reflexo de tradições e de um certo estilo, das possibilidades e do desenvolvimento técnicoƒsocial, de uma mera necessidade prática, estando ligados às técnicas e aos materiais usados antigamente. O processo de degradação é único em cada edifício, mesmo que os materiais sejam semelhantes de edifício para edifício; raros são os casos em que se poderá transpor inteiramente a experiência obtida num edifício para o projecto de conservação de um outro, sendo necessário o estudo de cada situação particular.

No que diz respeito à análise e estudo de edifícios antigos e de soluções tradicionais, existem dois tipos distintos. O primeiro tipo consiste em efectuar estudos científicos baseados essencialmente em documentos históricos, transpondo o que for possível da experiência já obtida aplicada em casos concretos. O segundo tipo consiste em realizar estudos tecnológicos em laboratório e sobre protótipos.

O património arquitectónico é um bem valioso quer do ponto de vista económico, quer cultural. O turismo e o lazer são cada vez mais importantes na sociedade. A existência de monumentos emblemáticos é a principal atracção a determinados locais, gerando recursos financeiros, directa ou indirectamente. O património permite uma correcta percepção do passado, sendo uma herança transposta para os dias de hoje. Devem ser tomadas medidas para assegurar a correcta transmissão dos valores culturais herdados, para as gerações futuras.” (3)

O processo de levantamento de anomalias do mosteiro refere-se ao registo das origens, sintomas e natureza dos problemas por eles apresentados, no seu estado actual.

 

(3)   http://repositorio.utad.pt/bitstream/10348/282/1/msc_jppguimaraes.pdf

 

As anomalias detectadas são assinaladas esquematicamente sobre peças desenhadas - plantas, alçados e cortes - que sejam necessárias para evidenciar a sua importância e disposição no edifício.

O processo de levantamento das anomalias reporta-se a todos os elementos primários da construção ou estrutura, nomeadamente:

  • Paredes.
  • Pavimentos.
    • Cobertura.
    • Escadas.
    • Fundações.
      • Outros elementos da construção.

 

Sempre que possível, serão utilizados termos que definam correctamente as anomalias detectadas, como por exemplo:

  • Fissuração localizada com orientação preferencial.
  • Fissuração generalizada sem orientação preferencial.
    • Assentamentos diferenciais da construção.
    • Deformações de paredes ou pavimentos.
    • Manchas de humidade.
    • Desagregação ou destacamento dos materiais de revestimento.
    • Eflorescências ou criptoflorescências.
    • Presença de bolores ou fungos.
    • Presença de podridão ou insectos xilófagos nos elementos de madeira.
      • Outros.

 

Nalguns dos casos onde forem detectadas fissuras, poder−se−á medir a sua abertura através de uma régua de fissuras e registá−la para posterior comparação, caso venha a ser necessário.

Todos os sintomas detectados serão assinalados em plantas, alçados e cortes, a uma escala apropriada, devendo-se ter em conta as seguintes características da representação do levantamento:

Deformações excessivas de pavimentos, escadas e coberturas, com indicação das cotas altimétricas das deformadas, em relação à cota de soleira do edifício. Poder−se−á adoptar a representação das deformações através de curvas de nível.

  • Empenos de paredes resistentes. A representação poderá ser feita através de curvas de igual profundidade.
  • Fissuração das paredes de alvenaria e de outros elementos estruturais, definida pela disposição das fissuras e pela respectiva abertura, de forma a evidenciar a sua importância.
  • Presença de manchas de humidade, com indicação da sua extensão e respectiva indicação qualitativa da humidade superficial.
  • Apodrecimento de elementos estruturais de madeira - soalho e vigamento - incluindo indicação da sua extensão e profundidade.
  • Degradação dos elementos de madeira pela acção de agentes biológicos - fungos e insectos xilófagos − incluindo indicação da sua extensão e profundidade.
    • Presença de zonas com deterioração dos revestimentos, com indicação da sua extensão.
    • Presença de lacunas nos revestimentos, com indicação da sua extensão;
      • Corrosão de elementos estruturais metálicos. (estrutura do coreto)

 

 

É realizado um levantamento fotográfico dos elementos de pormenor mais representativos do estado de conservação do mosteiro.

Ao registo dos sintomas detectados é dado tratamento informático, em suporte CAD, permitindo assim a sua mais fácil manipulação posterior.

Metodologia

Para o estudo exaustivo das técnicas construtivas tradicionais e das técnicas de reparação em intervenções sobre as anomalias encontradas no mosteiro, a metodologia utilizada obedeceu a seguinte estrutura:

-  Foi fundamental a realização de uma pesquisa bibliográfica relacionada com a temática em estudo, a fim de se recolher toda a informação necessária.

-    Abordaram-se princípios e critérios de conservação, reabilitação e restauro de edifícios históricos e também cartas e convenções internacionais de salvaguarda do património cultural. Fez-se um estudo de legislação aplicável ao restauro e reabilitação de estruturas de interesse histórico e arquitectónico e ainda a pesquisa de exemplos de estudos de diagnóstico.

-   Indicaram-se técnicas e materiais de construção para reparação das anomalias. O trabalho de campo consistiu em algumas visitas ao mosteiro onde se avaliou o estado de conservação dos edifícios, diagnosticaram-se os sintomas patológicos, danos e deficiências, tendo-se efectuado o seu levantamento fotográfico. Procedeu-se à organização e análise dos dados recolhidos e elaboraram-se fichas de diagnóstico com a identificação de anomalias e sugestão de técnicas de intervenção.

− Esquematizou−se e fez−se redacção definitiva deste documento.

                       

 

Princípios e critérios de conservação, reabilitação e restauro

"É de interesse compreender e distinguir correctamente conservação, reabilitação e restauro de edifícios.

A conservação consiste num conjunto de operações de manutenção, que têm por objectivo aumentar a durabilidade e prevenir a degradação de um edifício ou monumento.

A manutenção de um edifício ou monumento consiste em intervenções periódicas a fim de salvaguardar a sua preservação física e destinadas à prevenção e correcção de algumas anomalias, para que estes atinjam o seu tempo de vida útil (período durante o qual consegue ter o desempenho de acordo com as exigências impostas, sem necessidade de intervenções para além da sua manutenção), sem perda de desempenho.

A reabilitação de um edifício, consiste principalmente na sua alteração de modo a obter níveis de desempenho superiores aos existentes e a adquirir e/ou repor condições de uso de acordo com determinados padrões exigências, sem alterar as partes da construção que são significativas para o seu valor histórico.

O restauro é o conjunto de operações com vista à recuperação da forma original de uma construção respeitando todas as suas fases construtivas. Deve-se, no caso de a segurança do edifício obrigar a acréscimos, diferenciar-se de forma harmoniosa, a nova intervenção da obra antiga. Recorre-se também à remoção de obras adicionais e substituição de obras de origem em falta, preservando todos os elementos recuperáveis, reconstituindo o edifício. No restauro de um monumento e na reabilitação de um edifício de valor patrimonial ou corrente, as intervenções devem garantir a autenticidade, a reversibilidade e a compatibilidade.

As intervenções são essenciais e necessárias para poder garantir a salvaguarda, durabilidade e autenticidade dos edifícios antigos para as gerações futuras, assegurando a continuidade do passado. Deve-se recorrer sempre que possível a materiais e técnicas originais ou que tenham compatibilidade (adaptando o novo ao antigo). Identificando as anomalias e suas causas é possível solucionar os problemas a elas inerentes, aplicando técnicas e materiais antigos ou contemporâneos considerando sempre uma possível reversibilidade futura.

A durabilidade é uma característica que os materiais devem ter para cumprirem a sua missão que é preservar os edifícios e monumentos antigos das intempéries e adversidades, durante um longo período de tempo. Qualquer intervenção efectuada deve garantir a durabilidade, com o mínimo de alterações possíveis.

A autenticidade é inseparável das operações de conservação, reabilitação e restauro; segundo este conceito nunca pode ser posta em causa a identidade e a veracidade do edifício ou monumento original.

A compatibilidade deve estar presente em todas as intervenções efectuadas nos edifícios antigos. Reversibilidade significa ser possível voltar ao estado anterior à intervenção.

Deve ser garantida a possibilidade de se poder remover, sem provocar danos aos materiais originais, os novos elementos resultantes da intervenção, quer seja no fim da sua vida útil, quer para poderem ser substituídas por medidas mais apropriadas ou no caso de revelarem sinais de serem inadequados." (4)

 

 

Bibliografía

 

 

A.A.V.V. Tratado de rehabilitación: patología y técnicas de intervención (elementos estructurales), Tomo III, Madrid, editorial Munilla‐Lería, 1998

 

A.A.V.V. Tratado de rehabilitación: patología y técnicas de intervención (Fachadas y cubiertas), Tomo IV, Madrid, editorial Munilla‐Lería, 1998

 

CÓIAS, Vítor Reabilitação Estrutural de Edifícios Antigos, edição Argumentum/GeCoRPA, Julho de 2007