CLB-MCS 2018 3º Congresso Luso-Brasileiro Materiais de Construção Sustentáveis Coimbra, 14-16 de fevereiro de 2018

A Arquitetura Vernácula em madeira, como premissa da construção contemporânea de Madeira

João ALVES1*, Mónica ALCINDOR2, Luis PACHECO2

 

1:  www.construcao-eco-sistema.com

 

2:Escola Superior Gallaecia

 Largo das Oliveiras 4920-251 V. N. Cerveira

esg@esg.pt, www.esg.pt

 

Palavras-chave: Arquitetura vernácula, construção em madeira, sequestro do carbono, construção sustentável

Resumo Arquitetura vernácula é um verdadeiro reduto de racionalidade, representa a sabedoria ancestral, em que as soluçõespropostas são o resultado de séculos de empirismo. Estas soluções arquitetónicas são soluções adaptadas ao clima e cultura de cada região, adequando-se aos materiais e ao meio ambiente envolvente. São princípios necessários rever, para uma arquitetura mais racional. A Arquitetura vernácula em madeira utiliza técnicas de construção de uma conceção simples e com recursos tecnológicos muito básicos. Tecnologias com qualidades e características que se podem utilizar numa construção contemporânea responsável.

Os edifícios consomemmais de 40% do consumo de energia e 36% de CO2 na Europa. É neste contexto, que a construção em madeira pode ser a resposta para edifícios mais eficiente, com a principal premissa: a energia mais barata é aquela que não se consome.

Em conclusão utiliza-se a frase do Professor Alex de Rijke “If the 19th century was the century of steel and the 20th century the century of concrete, then the 21st century is about engineered timber”,para enfocar a evolução das estruturas em madeira e as suas várias vantagens da sua utilização: no conforto, eficiência energética, ciclo de vida, durabilidade, resistência, etc. Confere-se às estruturas em madeira a resolução da problemática da sustentabilidade da construção.

 

 

  1. INTRoDUÇÃO

1.1.  Objetivos

Este estudo foi realizado no âmbito de uma investigação académica da Escola Superior Gallaecia. Tem o propósito de dar a conhecer varias técnicas de arquitetura vernácula em madeira, mostrar o seu potencial na problemática do conforto energético, redução de CO2 e na análise de ciclo dos edifícios. Mostrar vários exemplos da sua aplicabilidade na arquitetura contemporânea.

1.2.  Premissas da arquitetura vernácula na arquitetura contemporânea

As premissas da Arquitetura Vernácula ainda são validas na arquitetura contemporânea: na rentabilização de recursos naturais do meio envolvente; nas soluções adaptadas ao clima e cultura da cada região; na adequabilidade aos materiais e os espaços ao meio ambiente envolvente, preservando a identidade do edificado e a memória coletiva de um povo. Acha-se importante um olhar às técnicas usadas nessas construções, pois são um legado ancestral com características únicas, que fizeram com que a maioria dos edifícios tenham sido preservados centenas de anos, só vindo a sofrer degradação quando existe o abandono ou não há uma adequada manutenção do edificado.

1.3.   A evolução que indústria dos derivados da madeira

É também, pertinente olhar para a evolução que indústria dos derivados da madeira experimentou neste século, que se tornou numa corrente de opiniões, uma declaração frequentemente citada: “se o século XIX foi o século do ferro e o século XX foi o século do betão armado, então o século XXI é o século dos produtos derivados da madeira” (Rijke, 2015). Essa evolução está a mudar a forma como se observa e se valoriza as estruturas de madeira, ao reconhecer as muitas qualidades singulares que a madeira oferece, à qualidade dos edifícios. Sendo entre muitas, as suas excelentes qualidades térmicas, que permitem dar resposta a normas cada vez mais exigente na eficiência energética dos edifícios.

1.4.  nZEB e as construções de madeira

Os edifícios consomem mais de 40% do consumo de energia e 36% de CO2 na Europa. Existindo um potencial significativo na economia de energia e redução de emissões de CO2 nos edifícios novos e existentes. Tendo a diretiva sobre Energy Performance in Buildings (EPBD) introduzido, na sua revisão em 2010, os conceitos de nível ótimo de rentabilidade e de nZEB (edifícios com necessidades quase nulas de energia). É nesta conjetura, que se vê na construção de madeira com as suas várias técnicas construtivas, soluções ótimas para a sua aplicabilidade arquitetura contemporânea.           

 

  1. Contribuição técnica/científica

2.1.  A arquitetura vernácula na construção contemporânea responsável

A arquitetura vernácula de madeira é executada com técnicas de construção de uma conceção simples e com recursos tecnológicos muito básicos. Verifica-se a utilização de madeira maciça de pinho bravo (pinus pinaster) em todo o edifício: na estrutura dos pisos, tetos, coberturas e paredes. Nos tetos revestidos a gesso e nas paredes revestidas com argamassa de terra, cal e gesso. Tecnologias com as suas diferentes qualidades e características que podem ser usadas na hora de intervir no edificado: quer seja no restauro, reabilitação ou numa construção contemporânea responsável sustentabilidade

2.2.  A conjuntura da legislação nZEB em Portugal

O cumprimento de requisitos energéticos dos edifícios encara com normas cada vez mais exigentes, tendo a União Europeia estabelecido um enquadramento geral o nZEB - edifícios com necessidades quase nulas de energia e introduzido a análise do custo do ciclo de vida dos edifícios (Decreto-Lei n.º 118/2013 de 20 de agosto do Ministério da Economia e do Emprego, 2013). Segundo o presente diploma o nZEB: são edifícios com necessidades quase nulas de energia os que tenham um elevado desempenho energético e em que a satisfação das necessidades de energia resulte em grande medida de energia proveniente de fontes renováveis, designadamente a produzida no local ou nas proximidades. O presente diploma estabelece que os edifícios novos tem de ser nZEB após 31 de dezembro de 2020 e após 31 de dezembro de 2018 no caso de edifícios públicos.

2.3.  A madeira é feita pelo sol 

Se se partir da premissa: a energia mais barata é aquela que não se consome. Sendo a madeira por excelência o material da construção, que tem as melhores prestações térmicas é deducional, que se necessite menos isolamento, para se obterem edifícios energeticamente mais eficientes. Isto indica, que se pode ir além dos mínimos que as normas exigem.  Sendo madeira também o único dos principais materiais da construção que é feito pelo sol e é completamente renovável implica, na análise do ciclo de vida dos edifícios, um forte contributo de sustentabilidade da construção.

  1. Estado da Arte

3.1.  O conhecimento do precedente na hora para intervir no presente 

SHá vários autores que defendem o pressuposto de que é necessário o conhecimento do precedente, para intervir no presente com uma arquitetura mais racional. Javier Cenicacelaya & José Baganha realçam isso num artigo de opinião “Arquitetura tradicional e sustentabilidade” onde vêm a arquitetura vernácula como o verdadeiro reduto de racionalidade, expondo um texto revelador sobre a importância do precedente na hora de intervir no presente, (Cenicacelaya & Baganha, 2004). A ECOATKITET enlaça a Arquitetura Vernácula como a base dos princípios hoje válidos para a Arquitetura Bioclimática, a Construção Sustentável, a Arquitetura Solar Passiva, a Eco-Arquitetura, a Arquitetura Ecológica, entre outras (Ecoarkitekt, 2009). O projeto VERSUS: Lessons from Vernacular Heritage to Sustainable Architecture, entre os seus principais objetivos visa valorizar o conhecimento sobre os princípios fundamentais do património vernáculo, bem como, explorar novas formas de integração desses princípios numa arquitetura mais eco-responsável, (Guillaud, Moriset, Sánchez, & Sevillano, 2014). Daqui se epiloga as conjeturas da arquitetura vernácula, na valorização da arquitetura contemporânea.  

3.2.  Reféns da tecnologia imposta

A autora Mónica Alcindor defende, na sua tese de doutoramento, “La Rehabilitación limitada: el caso de las intervenciones de adaptación a los criterios de habitabilidad actual de edificaciones rurales construidas con técnicas históricas, aisladas o dentro de pequeños núcleos urbanos del Baix Empordà”, na necessidade dos arquitetos serem doutos e os principais interlocutores das intervenções no património edificado. Serem conhecedores das várias técnicas construtivas, por forma a não deixar esquecer nem cair em desuso técnicas ancestrais, que se comprovaram eficazes ao longo de séculos. Deve-se compreender o contexto tradicional local e deixar-se de estar reféns, das técnicas construtivas que a indústria da construção preconiza (Alcindor, 2011). A autora chama assim a atenção sobre os perigos dos conceitos de reabilitação, estarem ditados pelos valores económicos e não pela preservação da memória coletiva. Na mesma linha de pensamento, mas numa perspetiva diferente Nuno Almeida, no seu artigo de opinião publicada no jornal o Público “Fachadismo: a morte da (autenti)cidade de Lisboa” critica as intervenções nos centros urbanos, ditadas por normas que incentivam o esventramento das estruturas existentes e a manutenção de fachadas, o que está a levar a uma cidade sem identidade (Almeida, 2017). Este autor é da opinião que arquiteto tem que assumir um papel mais proactivo, não se opondo que a cidade assuma uma linguagem mais contemporânea, em detrimento de uma preservação descabida de contexto da fachada. Para uma leitura da cidade no tempo e não em realidades falseadas.

3.3.  “Se o século XIX foi o século do ferro e o século XX foi o século do betão armado, então o século XXI é o século dos produtos derivados da madeira”

Professor Alex de Rijke com a frase “If the 19th century was the century of steel and the 20th century the century of concrete, then the 21st century is about engineered timber”, enfoca a evolução das estruturas dos derivados da madeira.  Enumera as várias vantagens da utilização de técnicas de construção em madeira: no conforto, eficiência energética, ciclo de vida, rapidez de construção, durabilidade, resistência, etc. (Rijke, 2015). Confere a importância às estruturas em madeira, na resolução da problemática da sustentabilidade da construção.

3.4.  A “evolução” das técnicas de arquitetura vernácula em madeira

No contexto em que se insere a evolução das estruturas de madeira o autor J. Vaz, na sua investigação “Madeira como material predominante na construção em Portugal: O caminho da vernacularidade” pode ser o elo entre as técnicas vernáculas e as contemporâneas. Pois além de identificar um conjunto de técnicas construtivas em madeira puramente portuguesas, caracterizando soluções testadas e erros cometidos na construção e manutenção desses edifícios (Vaz, 2010). O que se torna importante, para uma seleção otimizada das técnicas, para a sua aplicabilidade nas construções contemporânea. Nessa seleção os autores Alexandre Bahamón e Anna Vicens, no livro Cabana: da Arquitectura Vernácula à Contemporânea, intervêm numa configuração mais formal na relação da arquitetura vernácula em madeira, com as soluções contemporâneas. Que de algum modo refletem ou reinterpretam as suas características (Bahamón e Soler, 2008). Um contributo para a observar como se apresenta hoje, a evolução das técnicas de construção em madeira.

3.5.  O reduto para a sustentabilidade da construção

Os investigadores Manuela Almeida, Marco Ferreira e Ana Rodrigues no relatório para a “Definição de nZEB em Portugal - Contributo com base em análises de custo de ciclo de vida”, apresentam as soluções que se consideram ótimas e rentáveis para a envolvente dos edifícios nas três zonas climáticas em que Portugal está dividido. Analisam as diferentes fontes de energia renováveis contemplando como é exigido na definição da nZEB: a rentabilidade no ciclo de vida do edifício. Fazendo um estudo comparativo das diferentes soluções, na procura da rentabilidade ótima para um período de 30 anos, com o respetivo custo global: custos do investimento; custo de manutenção e custo da energia (Almeida, Ferreira, & Rodrigues, 2016). Na leitura a esta investigação, ao introduzir a construção em madeira, no que se refere à análise do custo de vida e ao consumo energético dos edifícios, verifica-se que pode ser o reduto para a sustentabilidade da construção.

  1. conclusão

Num tempo de grandes avanços tecnológicos na indústria dos produtos derivados da madeira, é importante fazer um exercício de reflecção às técnicas da arquitetura vernácula em madeira, pois são a alma do nosso edificado e a memória coletiva de um povo. O conhecimento das técnicas não se opõe à evolução tecnológica, mas sim um aliado à hora de intervir no edificado, quer seja no restauro, reabilitação ou na construção nova.

Realçar as vantagens das técnicas de construção da arquitetura vernácula de madeira. Pondo à disposição do congresso, uma sinopse das diferentes soluções e técnicas construtivas vernáculas, capazes de cumprir as mais rigorosas normas e requisitos técnicos como a durabilidade, resistência, salubridade, conforto, etc. Bem como, o seu contributo para a sua aplicabilidade na arquitetura contemporânea em madeira. Abrindo um leque de soluções, que com outros materiais e técnicas construtivas, não seriam possíveis. Um exercício que se acha necessário, para poder-se evoluir para um futuro de identidade, tempo e memória.

Agradecimentos

Escola Superior Gallaecia no nome da Dra. Mariana Correia; Prof. Jorge Branco Universidade do Minho

REFERÊNCIAS

 

 [1]       Alcindor, M. (2011). La Rehabilitación limitada: el caso de las intervenciones de adaptación a los criterios de habitabilidad actual de edificaciones rurales construidas con técnicas históricas, aisladas o dentro de pequeños núcleos urbanos del Baix Empordà. (Tese de doutoramento, Universitat Politècnica de Catalunya, Espanha).Recuperado de http://www.tdx.cat/handle/10803/109046

[2]        Almeida, M., Ferreira, M., & Rodrigues, A. (2016). Definição de nZEB em Portugal - Contributo com base em análise de custo de ciclo de vida. Em J. Branco, & P. Lourenço (Ed.), Construir em madeira (pp. 27-38). Guimarães: Universidade do Minho.

[3]        Almeida, N. (2017,Março 14). Fachadismo: a morte da (autenti)cidade de Lisboa. Público. Recuperado de https://www.publico.pt/2017/03/14/local/noticia/fachadismo-a-morte-da-autenticidade-de-lisboa-1765043

[4]        Bahamón, A., & Soler A. (2008). Cabana: da Arquitectura Vernácula à Contemporânea. Lisboa: Edições Argumentum.

[5]        Cenicacelaya, J., & Baganha, J. (2004). Arquitectura Tradicional e Sustentabilidade. Recuperado de http://www.jbaganha.com/pdf/pt/0201.pdf.

[6]        Decreto-Lei n.º 118/2013 de 20 de agosto do Ministério da Economia e do Emprego. Diário da República: I série, Nº 159 (2013). Disponível em www.dre.pt.

[7]        Ecoarkitekt. (2009). Arquitectura Vernácula. Recuperado de http://www.ecoarkitekt.com/construcao-sustentavel/arquitectura-vernacula/

[8]        Guillaud, H., Moriset, S., Sánchez Muñoz, N., Sevillano Gutiérrez, E. (Eds.) (2014). VERSUS: Lessons from Vernacular Heritage to Sustainable Architecture. Booklet. Grenoble (France): ENSAG-CRAterre: 74p.

[9]        Santos, J. A. (2010). A importância da madeira na construção sustentável. In: Seminário Materiais de Construção e Sustentabilidade, Coimbra.

[10]      [12]     Rijke, A. (2015). 21 Reasons Why Wood is Better than Other Materials. Recuperado de https://www.woodsolutions.com.au/blog/21-Reasons-Why-Wood-is-Better-Prof-Alex-de-Rijke

[11]      Vaz, J. (2010). Madeira como material predominante na construção em Portugal: O caminho da vernacularidade. In IEFP- Instituto do emprego e formação profissional (Eds.), As Idades da Construção – Técnicas de construção e a sua aplicabilidade à arquitectura contemporânea. (pp. 45-59). Lisboa: IEFP- Instituto do emprego e formação profissional

 

Princípios e critérios de conservação, reabilitação e restauro.

As premissas da Arquitetura Vernácula ainda são validas na arquitetura contemporânea: na rentabilização de recursos naturais do meio envolvente; nas soluções adaptadas ao clima e cultura da cada região; na adequabilidade aos materiais e os espaços ao meio ambiente envolvente.

Diagnóstico e tecnologias de Conservação e Restauro

 Metodologia

Princípios e critérios de conservação, reabilitação e restauro 

“Tal como as pessoas os edifícios sofrem acções de degradação ao longo do tempo, sobretudo por acção de agentes patológicos, como os cloretos, o carbono etc..

Estas patologias frequentemente evoluem de forma progressiva, afectando a operacionalidade e em limite, a estabilidade do edifício.

A elaboração destes relatórios visa dotar o dono de obra de um diagnóstico actual do estado de conservação do edifício. Permite essencialmente identificar, tipificar e caracterizar as diferentes patologias do edifício, apontando soluções e/ou procedimentos a adoptar.” (2)

“Antes de se iniciar uma qualquer intervenção deve-se sempre avaliar o edifício, de modo a conhecerem-se as condições de conservação e segurança, e as patologias a eles inerentes bem como as causas que as provocam. Posteriormente deve proceder-se à pesquisa e análise de soluções tecnológicas que se podem aplicar, recorrendo, sempre que possível, a materiais e técnicas tradicionais e, em alguns casos, inovadoras.

O património cultural edificado vai sofrendo alterações ao longo dos anos, que são provocadas pelas forças da Natureza e pelo Homem. Preservar um edifício ou monumento é uma luta contra a Natureza e as suas forças que causam degradação física dos elementos. A preservação tem de ser um processo contínuo. Os edifícios antigos que chegaram aos dias de hoje, preservando a sua autenticidade são aqueles que tiveram uma manutenção periódica limitada ao que era necessário, executada com materiais e técnicas tradicionais originais ou compatíveis. A degradação dos edifícios antigos é, essencialmente, devido aos agentes climáticos, ao tipo de uso e à ausência de manutenção. Estes edifícios foram normalmente construídos com os materiais disponíveis na região onde foram construídos e encontram-se, nomeadamente, nos centros históricos de vilas e cidades, sendo importantes para a definição da sua identidade, especialmente dos centros urbanos tradicionais, enriquecendo o seu património cultural, e só, recentemente, têm sido reabilitados e conservados, ao contrário do que é feito com os edifícios especiais e monumentos, que são simultaneamente construções e bens culturais, cuja reabilitação e manutenção já se vem efectuando há muitos anos. A intervenção nestes edifícios é essencial para o sucesso da reabilitação urbana. Entende-se por edifício antigo, uma construção construída antes do aparecimento do betão, utilizando técnicas e materiais tradicionais.

A principal preocupação da conservação e da reabilitação é manter o aspecto e a qualidade original inalterada, sempre que possível recorrendo à utilização de materiais e tecnologias originais, de modo a manter a identidade do edifício e transmiti-la às gerações futuras, assegurando a continuidade do passado. Um edifício é tanto mais autêntico, quanto menor forem as substituições ou alterações de que o mesmo foi alvo.

A longevidade das construções só pode ser garantida se tiver preocupações a nível da conservação e reabilitação.

 

(2)   http://joseromanoarquitectos.com.pt/servicos/relatorio%20de%20patologias.htm

 

Uma dificuldade frequente na conservação e reabilitação de edifícios é a utilização de materiais e técnicas originais, isto porque os materiais utilizados podem já não se encontrar no mercado e, caso se encontrem, é difícil encontrar quem domine a sua aplicação prática. Por isso, muitas vezes recorre-se erradamente a materiais e técnicas modernas, uma grande parte delas incompatíveis com os edifícios antigos, perdendo assim o seu valor inerente. Materiais tais como cal, areia, pedra, barro, madeira e ferro com que muitas obras de arquitectura antiga e edifícios antigos foram construídos são também de boa qualidade, encontrando-se, hoje em dia, várias edificações que os utilizaram em excelente estado de conservação. Deve-se então recorrer aos materiais antigos (originais) e técnicas tradicionais, caso seja possível, em princípio compatíveis com os dos edifícios antigos, mas quando estes se revelam ineficazes devem-se utilizar técnicas e materiais contemporâneos. Usar materiais e técnicas tradicionais não é suficiente para garantir a qualidade de uma intervenção, porque os materiais novos, iguais aos utilizados antigamente foram produzidos recentemente, o que vai fazer com que haja algumas diferenças de comportamento em relação aos materiais que se encontram desde há muitos anos nos edifícios antigos. O estudo das técnicas tradicionais de construção de edifícios antigos contribui para a conservação dos mesmos.

Cada edifício é constituído por um conjunto diverso de materiais e estruturas, com variados posicionamentos e funções, formando um edifício com características únicas, resultado de uma determinada época, reflexo de tradições e de um certo estilo, das possibilidades e do desenvolvimento técnicoƒsocial, de uma mera necessidade prática, estando ligados às técnicas e aos materiais usados antigamente. O processo de degradação é único em cada edifício, mesmo que os materiais sejam semelhantes de edifício para edifício; raros são os casos em que se poderá transpor inteiramente a experiência obtida num edifício para o projecto de conservação de um outro, sendo necessário o estudo de cada situação particular.

No que diz respeito à análise e estudo de edifícios antigos e de soluções tradicionais, existem dois tipos distintos. O primeiro tipo consiste em efectuar estudos científicos baseados essencialmente em documentos históricos, transpondo o que for possível da experiência já obtida aplicada em casos concretos. O segundo tipo consiste em realizar estudos tecnológicos em laboratório e sobre protótipos.

O património arquitectónico é um bem valioso quer do ponto de vista económico, quer cultural. O turismo e o lazer são cada vez mais importantes na sociedade. A existência de monumentos emblemáticos é a principal atracção a determinados locais, gerando recursos financeiros, directa ou indirectamente. O património permite uma correcta percepção do passado, sendo uma herança transposta para os dias de hoje. Devem ser tomadas medidas para assegurar a correcta transmissão dos valores culturais herdados, para as gerações futuras.” (3)

O processo de levantamento de anomalias do mosteiro refere-se ao registo das origens, sintomas e natureza dos problemas por eles apresentados, no seu estado actual.

 

(3)   http://repositorio.utad.pt/bitstream/10348/282/1/msc_jppguimaraes.pdf

 

As anomalias detectadas são assinaladas esquematicamente sobre peças desenhadas - plantas, alçados e cortes - que sejam necessárias para evidenciar a sua importância e disposição no edifício.

O processo de levantamento das anomalias reporta-se a todos os elementos primários da construção ou estrutura, nomeadamente:

  • Paredes.
  • Pavimentos.
    • Cobertura.
    • Escadas.
    • Fundações.
      • Outros elementos da construção.

 

Sempre que possível, serão utilizados termos que definam correctamente as anomalias detectadas, como por exemplo:

  • Fissuração localizada com orientação preferencial.
  • Fissuração generalizada sem orientação preferencial.
    • Assentamentos diferenciais da construção.
    • Deformações de paredes ou pavimentos.
    • Manchas de humidade.
    • Desagregação ou destacamento dos materiais de revestimento.
    • Eflorescências ou criptoflorescências.
    • Presença de bolores ou fungos.
    • Presença de podridão ou insectos xilófagos nos elementos de madeira.
      • Outros.

 

Nalguns dos casos onde forem detectadas fissuras, poder−se−á medir a sua abertura através de uma régua de fissuras e registá−la para posterior comparação, caso venha a ser necessário.

Todos os sintomas detectados serão assinalados em plantas, alçados e cortes, a uma escala apropriada, devendo-se ter em conta as seguintes características da representação do levantamento:

Deformações excessivas de pavimentos, escadas e coberturas, com indicação das cotas altimétricas das deformadas, em relação à cota de soleira do edifício. Poder−se−á adoptar a representação das deformações através de curvas de nível.

  • Empenos de paredes resistentes. A representação poderá ser feita através de curvas de igual profundidade.
  • Fissuração das paredes de alvenaria e de outros elementos estruturais, definida pela disposição das fissuras e pela respectiva abertura, de forma a evidenciar a sua importância.
  • Presença de manchas de humidade, com indicação da sua extensão e respectiva indicação qualitativa da humidade superficial.
  • Apodrecimento de elementos estruturais de madeira - soalho e vigamento - incluindo indicação da sua extensão e profundidade.
  • Degradação dos elementos de madeira pela acção de agentes biológicos - fungos e insectos xilófagos − incluindo indicação da sua extensão e profundidade.
    • Presença de zonas com deterioração dos revestimentos, com indicação da sua extensão.
    • Presença de lacunas nos revestimentos, com indicação da sua extensão;
      • Corrosão de elementos estruturais metálicos. (estrutura do coreto)

 

 

É realizado um levantamento fotográfico dos elementos de pormenor mais representativos do estado de conservação do mosteiro.

Ao registo dos sintomas detectados é dado tratamento informático, em suporte CAD, permitindo assim a sua mais fácil manipulação posterior.

Metodologia

Para o estudo exaustivo das técnicas construtivas tradicionais e das técnicas de reparação em intervenções sobre as anomalias encontradas no mosteiro, a metodologia utilizada obedeceu a seguinte estrutura:

-  Foi fundamental a realização de uma pesquisa bibliográfica relacionada com a temática em estudo, a fim de se recolher toda a informação necessária.

-    Abordaram-se princípios e critérios de conservação, reabilitação e restauro de edifícios históricos e também cartas e convenções internacionais de salvaguarda do património cultural. Fez-se um estudo de legislação aplicável ao restauro e reabilitação de estruturas de interesse histórico e arquitectónico e ainda a pesquisa de exemplos de estudos de diagnóstico.

-   Indicaram-se técnicas e materiais de construção para reparação das anomalias. O trabalho de campo consistiu em algumas visitas ao mosteiro onde se avaliou o estado de conservação dos edifícios, diagnosticaram-se os sintomas patológicos, danos e deficiências, tendo-se efectuado o seu levantamento fotográfico. Procedeu-se à organização e análise dos dados recolhidos e elaboraram-se fichas de diagnóstico com a identificação de anomalias e sugestão de técnicas de intervenção.

− Esquematizou−se e fez−se redacção definitiva deste documento.

                       

 

Princípios e critérios de conservação, reabilitação e restauro

"É de interesse compreender e distinguir correctamente conservação, reabilitação e restauro de edifícios.

A conservação consiste num conjunto de operações de manutenção, que têm por objectivo aumentar a durabilidade e prevenir a degradação de um edifício ou monumento.

A manutenção de um edifício ou monumento consiste em intervenções periódicas a fim de salvaguardar a sua preservação física e destinadas à prevenção e correcção de algumas anomalias, para que estes atinjam o seu tempo de vida útil (período durante o qual consegue ter o desempenho de acordo com as exigências impostas, sem necessidade de intervenções para além da sua manutenção), sem perda de desempenho.

A reabilitação de um edifício, consiste principalmente na sua alteração de modo a obter níveis de desempenho superiores aos existentes e a adquirir e/ou repor condições de uso de acordo com determinados padrões exigências, sem alterar as partes da construção que são significativas para o seu valor histórico.

O restauro é o conjunto de operações com vista à recuperação da forma original de uma construção respeitando todas as suas fases construtivas. Deve-se, no caso de a segurança do edifício obrigar a acréscimos, diferenciar-se de forma harmoniosa, a nova intervenção da obra antiga. Recorre-se também à remoção de obras adicionais e substituição de obras de origem em falta, preservando todos os elementos recuperáveis, reconstituindo o edifício. No restauro de um monumento e na reabilitação de um edifício de valor patrimonial ou corrente, as intervenções devem garantir a autenticidade, a reversibilidade e a compatibilidade.

As intervenções são essenciais e necessárias para poder garantir a salvaguarda, durabilidade e autenticidade dos edifícios antigos para as gerações futuras, assegurando a continuidade do passado. Deve-se recorrer sempre que possível a materiais e técnicas originais ou que tenham compatibilidade (adaptando o novo ao antigo). Identificando as anomalias e suas causas é possível solucionar os problemas a elas inerentes, aplicando técnicas e materiais antigos ou contemporâneos considerando sempre uma possível reversibilidade futura.

A durabilidade é uma característica que os materiais devem ter para cumprirem a sua missão que é preservar os edifícios e monumentos antigos das intempéries e adversidades, durante um longo período de tempo. Qualquer intervenção efectuada deve garantir a durabilidade, com o mínimo de alterações possíveis.

A autenticidade é inseparável das operações de conservação, reabilitação e restauro; segundo este conceito nunca pode ser posta em causa a identidade e a veracidade do edifício ou monumento original.

A compatibilidade deve estar presente em todas as intervenções efectuadas nos edifícios antigos. Reversibilidade significa ser possível voltar ao estado anterior à intervenção.

Deve ser garantida a possibilidade de se poder remover, sem provocar danos aos materiais originais, os novos elementos resultantes da intervenção, quer seja no fim da sua vida útil, quer para poderem ser substituídas por medidas mais apropriadas ou no caso de revelarem sinais de serem inadequados." (4)

 

 

Bibliografía

 

 

A.A.V.V. Tratado de rehabilitación: patología y técnicas de intervención (elementos estructurales), Tomo III, Madrid, editorial Munilla‐Lería, 1998

 

A.A.V.V. Tratado de rehabilitación: patología y técnicas de intervención (Fachadas y cubiertas), Tomo IV, Madrid, editorial Munilla‐Lería, 1998

 

CÓIAS, Vítor Reabilitação Estrutural de Edifícios Antigos, edição Argumentum/GeCoRPA, Julho de 2007